Call for Papers

Da alavanca ao tear, da roda ao torno
Da linha de montagem ao cadinho
Do aço incandescente a entrar no forno
À agulha a trabalhar devagarinho
(…)
Transformar a matéria é transformar
A própria sociedade que nós fomos
Ser operário é apenas saber dar
Mais um pouco de nós ao que nós somos.

Tríptico do Trabalho: 2 – A Fábrica, Ary dos Santos, 1979

Nas últimas décadas, de vários quadrantes e com diferentes matizes, proclamou-se o fim do trabalho. Nas nossas sociedades, a par dos processos de reorganização, deslocalização ou transformação de ofícios tradicionais, atividades industriais e profissões várias, emerge a ideia do seu desaparecimento. E com ela a de que os trabalhadores, os seus salários, as suas regalias sociais e reivindicações são nocivos à economia e se transformam num mal social. Numa breve reflexão sobre o que se passa no mundo do trabalho, o escritor G. Mordillat afirma: “ontem como hoje, aqueles que trabalham, que ganham a sua vida trabalhando, são considerados como escravos, perdedores numa sociedade que não quer saber senão do sucesso do dinheiro, da rentabilidade imediata, do liberalismo triunfante, do capitalismo cujo herói é sempre um herói individual.”

A representação do trabalho veiculada pela comunicação social refere-se sobretudo ao emprego precário, ao desemprego, à imigração (agora, à emigração). Também na cultura de massas (salvo raras exceções), o trabalho, os operários, os trabalhadores, as suas condições de vida, as suas esperanças e lutas estão ausentes. E, se no nosso imaginário essas figuras são inexistentes, o mesmo ocultamento é ensaiado nas empresas e no mercado de trabalho: cada vez mais se fala em colaboradores no lugar de trabalhadores e afirma-se a necessidade da existência de indivíduos empreendedores no lugar de assalariados – pretendendo-se mesmo ver o problema social do desemprego como um problema individual de empregabilidade.

A verdade é que, no quotidiano, contactamos com esses heróis anónimos/coletivos que (direta ou indiretamente) participam nas nossas vidas. São cozinheiros, carteiros, empregados de café, alfaiates, funcionários dos Centros de Emprego e Formação Profissional ou da Segurança Social, auxiliares de educação, operários na indústria têxtil/automóvel /alimentar, etc… trabalhadores.

Simultaneamente, estivadores, professores, maquinistas da CP, médicos, operadores de call center, enfermeiros, condutores da Carris, empregados da grande distribuição, entre outros, têm sido presença constante e organizada nas recentes greves gerais e manifestações de protesto contra a exploração que agora se veste de austeridade.

Apesar de invisíveis ao nosso olhar, o trabalho, os trabalhos e os trabalhadores continuam, portanto, a existir. Este seminário tem por objetivo virar os holofotes na direção dessa realidade.

Assim, pretende-se reunir investigadores de diferentes áreas disciplinares (antropologia, sociologia, história, economia, estudos literários e da tradição oral…) interessados em interrogar e debater o mundo do trabalho contemporâneo, suas continuidades e mudanças, processos e relações, representações e materialidades.

As propostas de comunicação poderão abordar tópicos tais como:

– Técnicas, materialidade e práticas do trabalho;
– Organização e relações de produção;
– Políticas laborais e regulamentação do trabalho;
– Transformações da relação de assalariamento (precarização, proletarização, pseudo autoemprego, etc.);
– Desemprego e outras situações de trabalho ausente;
– Condições de vida e condição social dos trabalhadores;
– Resistência e consentimento;
– Transmissão e reprodução social, identidade e memória;
– Representações do trabalho e dos trabalhadores.

Os interessados devem enviar as suas propostas de comunicação (contendo a indicação do título, o resumo com cerca de 300 palavras e uma breve nota biográfica dos autores) até 15 de março de 2013, para trabalhoetrabalhadores2013@gmail.com.

A decisão relativa às comunicações aceites será transmitida até 5 de abril de 2013.

O seminário terá lugar no Auditório 1, Torre B, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, nos dias 2 e 3 de maio de 2013.

Comissão Científica:
Emília Margarida Marques (CRIA/IUL)
Inês Fonseca (CRIA/FCSH-UNL)
Manuel Branco (NICPRI.UE)
Paula Godinho (IELT/FCSH-UNL)
Silvestre Lacerda (DGLAB)

Organização:
Carolina Vilardouro (IELT-FCSH-UNL)
Filipa Soares (IELT-FCSH-UNL)
Joana Alcântara (IELT-FCSH-UNL)
João Edral (IELT-FCSH-UNL)
Paula Godinho (IELT-FCSH-UNL)

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